“Tinham-lhe posto o nome de «dentes de rato», porque os dentes dela eram pequenos e finos, e pela mania que ela tinha de morder a fruta que estava na fruteira e deixar lá os dentes marcados.”
“Tinham-lhe posto o nome de «dentes de rato», porque os dentes dela eram pequenos e finos, e pela mania que ela tinha de morder a fruta que estava na fruteira e deixar lá os dentes marcados.”
“Lourença tinha três irmãos. (…)
Artur, o mais velho, que tinha uma vida misteriosa, como todos os rapazes de doze anos; Falco, que era Francisco, e ainda fazia toda a espécie de asneiras (…). E, por fim, o terceiro, uma rapariga, muito mais velha e que se parecia extraordinariamente com uma pessoa adulta.”
“O tio António tinha o dom de convencê-la. Era um homem novo que aparecia raramente e que tratava os sobrinhos como se fossem sacos de batatas.”
“Lourença, aos seis anos, sabia muitas coisas que ninguém suspeitava. Guardava-as para ela, porque as pessoas que nos conhecem de perto não são capazes de nos levar a sério (…) o próprio pai baixava o jornal para olhar para ela de maneira divertida. Lourença não compreendia como os adultos tratavam a gente pequena daquela maneira: como se fosse só números de circo e mais nada.”
“No Carnaval (…) às vezes, Marta deixava que Lourença se fantasiasse com as roupas dela e ela parecia uma cigana. Para fazer melhor efeito, Falco pintou-a com tintura de iodo diluída em água, dizendo que era assim que Marta se fazia morena, duas semanas antes de ir para a praia.”
“Ela dormia no mesmo quarto com a irmã e tinha a sua maneira de viver só, mesmo com Marta a ocupar todo o espaço. Ela enchia tudo com os seus frascos, roupas de baixo e de cima, cartas, revistas e escovas.”
”(…) nesse dia da semana havia feira da lenha no terreiro em frente ao hospital e elas tinham de passar por lá. Os carros carregados de lenha para os fogões vinham dos arredores e eram puxados por bois amarelos. Tinham chifres tão grandes e estavam tão chegados no campo da feira, que se ouvia sempre um ruído de paus. Lourença tinha muito medo dos bois.”
“Lourença entrou para as primeiras letras, e houve uma certa confusão com ela. Sabia demais, mas não tinha feito exame nenhum. As professoras olhavam para ela com aborrecimento. Preferiam que ela fosse ignorante e que começasse pelo princípio. Experimentaram deixá-la na primeira classe, mas Lourença lia tão bem e estava tão segura de si que incomodava a professora.”
"por Mariana Costa"